A Importância da afetividade no contexto educacional do universo virtual.

Artigo produzido durante o curso de pós-graduação em Designer Instrucional para EaD Virtual ministrado pela Universidade Federal de Itajubá.

Autoras: Brigitte Bedin; Clara Sihel; Márcia Marisa Corrêa; Maria Delcina Feitosa; Marjorie Klich Nunes.

Para Piaget, o papel da afetividade é funcional na inteligência, pois esta é a fonte de energia que a cognição utiliza para o seu respectivo funcionamento. Uma melhor explicação para representar este postulado, se encontra na seguinte metáfora, criada pelo próprio Piaget: “a afetividade seria como a gasolina, que ativa o motor de um carro, mas não modifica sua estrutura”; ou seja, existe uma relação intrínseca entre a gasolina e o motor —— ou entre a afetividade e a cognição —, porque o funcionamento do motor, comparado com as estruturas mentais, não é possível sem o combustível, que no caso é a afetividade.

Ao pensarmos a educação virtual deparamo-nos com a ausencia do contato físico, ou seja, a possibilidade de olhar, perceber através dos sentidos. Segundo Luciana Martins Saraiva:
Numa relação virtual, certas características e dimensões implícitas apontam formas de ser e de configurar sentidos, condições essas de grande significado, tais como a necessidade de estabelecimento de contatos, de ampliação de laços de afetividade com ênfase na imagem e voz de professores e alunos – atores desse processo – e a importância do olho-no-olho, do face a face, mesmo que distantes em tempo e espaço”.

Desde os primórdios de nossa existência fala-se da dicotomia entre razão e emoção, ou seja, muitos foram os filosofos que sugeriram essa separação, um bom exemplo é René Descartes com o cogito: “Penso, logo existo”. Em nosso dia-a-dia convivemos com frases como: “não aja com o coração”, “coloque a cabeça para funcionar”, “seja mais racional”, “Fica a impressão de que, em nome de uma resolução sensata, deve-se desprezar, controlar ou anular a dimensão afetiva”. (Arantes, 2002)
E pela otica cognitiva? Qual a importância da afetividade no aprendizado?

Partimos da premissa de que no trabalho educativo cotidiano não existe uma aprendizagem meramente cognitiva ou racional, pois os alunos e as alunas não deixam os aspectos afetivos que compõem sua personalidade do lado de fora da sala de aula, quando estão interagindo com os objetos de conhecimento, ou não deixam "latentes" seus sentimentos, afetos e relações interpessoais enquanto pensam. (Arantes, 2002)

Cultivar a afetividade em qualquer relação é fundamental para que se sedimente e frutifique. Em relação à educação Madalena Freire diz que “somos geneticamente amorosos” então vale buscar este amor do qual somos dotados e trazê-lo para nossa relação tanto enquanto ensinante quanto enquanto aprendente. Pois sendo professor ou aluno, ora assumimos um papel, ora outro. Também diz Madalena que “Para rir e brincar construindo conhecimento é necessário uma boa dose de humildade e abertura para as divergências, as diferenças. Também disponibilidade para conviver com o estado de desarmonia que o conflito provoca.”

Acreditamos que cultivar a afetividade no ambiente de aprendizagem, seja ele virtual ou não, vai além da troca de amabilidades, mas do exercício contínuo do amor ao outro, no ato generoso e humilde de transferência de informação para a geração do conhecimento e a consequente assimilação da resposta do outro, dentro dos preceitos de civilidade, respeito e afeto.

Consciente de que cada um é senhor do seu aprendizado, que somos, enquanto educadores, apenas facilitadores ou mediadores do processo, função de extrema importância, mas que deve ser enxergada com humildade, totalmente isenta da pecha do mestre.

Valente nos fala do “estar junto virtual” em EaD que prega que e o processo educativo passa por “múltiplas interações no sentido de acompanhar e assessorar o aprendiz para entender o que ele faz e, assim propor desafios que o auxiliem a atribuir significado ao que está desenvolvendo” Na verdade o que Valente nos diz é que a interatividade é a base do processo educacional em EaD e que para que o processo se desenrole a contento há que se construir a relação afetiva entre os atores, na tentativa de resolver a questão da ausência espacial e temporal, construindo o “estar junto virtual”.

Em nosso curso cremos que isto se estabelece quando as relações com tutor são profícuas e quando conseguimos chamar o colega com o qual interagimos apenas no ambiente virtual de: Amigo!

Fica patente a importância das relações interpessoais quando lemos os PCNs que reconhecem a importância da participação do aluno e da relação interpessoal no processo de ensino e aprendizagem, bem como, através dos Referenciais de Qualidade para Educação Superior à Distância (MEC - 2007):

“Em suma, o projeto de curso deve prever vias efetivas de comunicação e diálogo entre todos os agentes do processo educacional, criando condições para diminuir a sensação de isolamento, apontada como uma das causas de perda de qualidade no processo educacional, e uma dos principais responsáveis pela evasão nos cursos a distância”.

Porém, Segundo Marchand, (1985: 19) na prática pedagógica, podem surgir entre professor e aluno, sentimentos de atração ou de repulsão. Essas atitudes sentimentais têm o poder de influenciar a metodologia com risco de alterá-la, provocando no aluno, rudes transformações afetivas mais ou menos desfavoráveis ao ensino. O poder do professor é maior que o do livro, e a qualidade do diálogo estabelecido entre professor e aluno é importante para uni-los, criando um laço especial, ou para separá-los, criando obstáculos intransponíveis.

A evasão no contexto virtual é uma realidade que pode ser minimizada através da afetividade. Trazer o aluno para perto, dialogar, fazê-lo sentir-se parte do processo educativo, ações necessárias para mantê-lo feliz e participativo. Quando o professor se dispõe a ensinar e o aluno a aprender, vai se formando uma corrente de elos afetivos que propicia uma troca entre ambos, onde a motivação, a boa vontade e o cumprimento dos deveres acabam deixando de serem tarefas árduas para o aluno. Criatividade, interesse e disposição para esclarecer dúvidas, funcionam como estímulo para o professor.

Codo e Gazzotti (2002) definem a palavra seduzir como “trazer para o seu lado”. Isto significa que o professor precisa fazer um trabalho de conquista, levando o aluno a confiar nele, a acreditar que determinado conteúdo lhe será útil. Isto é sedução e afetividade.

Segundo Freire, não existe educação sem amor. “Ama-se na medida em que se busca comunicação, integração a partir da comunicação com os demais” (FREIRE, 1983: 29). Freire (1996) ainda nos diz que o professor precisa estar aberto ao gosto de querer bem. Isso não quer dizer que o professor tenha de querer bem a todos os alunos da mesma forma, mas que ele não deve permitir que sua afetividade interfira no cumprimento do seu dever de educador. Abertura ao querer bem significa disponibilidade para a alegria, para o afeto, para o Amor.

Alicia Fernández, psicopedagoga argentina, em entrevista dada à revista Aprende Brasil (junho/julho 2007, p.14-17), atenta para a necessidade de fazer do afeto uma das ferramentas no ato de educar.

Tratar o aluno com afeto não significa tratá-lo com beijos, abraços ou procurando agradá-lo, significa apenas que devemos acordar e tomar atitudes que nos levem a sair de nossa indiferença, porque essa “indiferença” é justamente a falta de afetividade.

Não bastam técnicas e dinâmicas para promover afetividade, até mesmo porque elas não podem ser inseridas em qualquer contexto, sejam presenciais ou digitais. É necessário um profundo conhecimento dos interlocutores que participam do processo de aprendizagem e compreender como se relacionam no mundo digital. Assim sendo, os professores que atuam no ambiente virtual precisam estar cientes de que as respostas e comportamentos dos alunos são produzidos por pessoas reais que amam, odeiam, sentem medo e também podem sentir-se excluídos caso não recebam o afeto e acompanhamento necessários para o seu desenvolvimento. Inovar não apenas através do método e tecnologia, mas também como ser humano.

Bibliografia

ARANTES, V. Cognição, afetividade e moralidade. São Paulo, Educação e Pesquisa, 26(2): 137-153, 2001; ARANTES, V.; SASTRE, G. Cognición, sentimientos y educación. Barcelona, Educar, v. 27, 2002.

CODO, Wanderley (Coordenador) GAZZOTTI, Andréa Alessandra. Educação: carinho e trabalho. Petrópolis, RJ: 3ª Edição. Ed. Vozes. Brasília: Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação: Universidade de Brasília. Laboratório de Psicologia do Trabalho, 2002.

FREIRE, Madalena. Educador educa a dor. São Paulo: Paz e terra, 2008

FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Tradução de Moacir Gadotti e Lílian Lopes Martin. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1983. Coleção Educação e Comunicação vol. 1.

_____________ Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura).

http://www.hottopos.com/videtur23/valeria.htm

PIAGET, Jean. (1954) Intelligence and affectivity: their relationship during child development. Annual Reviews, Palo Alto-CA, (ed.USA, 1981).

SARAIVA, Luciana Martins; PERNIGOTTI, Joyce Munarski; BARCIA, Ricardo Miranda; LAPOLLI, Edis Mafra. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 3, p. 483-491, set./dez. 2006.
VALENTE, J. A. Formação de educadores para o uso da informática na escola. Campinas: UNICAMP/NIED, 2003.

Unknown

Um comentário:

  1. Olá! :) Excelente o artigo! Contempla uma totalidade sobre a importância de relações educacionais afetivas na EaD. Chama a atenção o que escreves acerca das confusões em torno do significado da 'afetividade' no contexto educacional. Realmente. Vemos docentes achar que são afetivos quando chamam os alunos de 'queridos' e mandam beijos.
    Afetividade de um docente para com os alunos ultrapassa em muito tratamentos carinhosos. Demanda uma ação educacional humanística: o professor precisa conhecer, aceitar e respeitar os aprendentes em suas diferenças e, especialmente estar ali - mesmo que em silêncio - acompanhando sua trajetória, dando feedbacks e auxílios quando solicitado (e não apenas ao final quando nada mais pode ser feito)e intervindo quando perceber que as interações e avanços estão perdendo a força. As vezes basta uma frase para fazer a diferença.

    O professor não é o único responsável mas, dependendo dos alunos, especialmente se advindos de culturas ensinantes, só assumirão seu empoderamento como sujeitos capazes de contribuir e considerarão as intervenções dos pares se forem incentivados e instigados a tal pelo professor. []s

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